A Grande Epopeia dos Celtas - Can Maru

Trexo: "A identidade e a especificidade de uma civilizaçao, seja ela antiga ou moderna, só se tomam reconhecíveis no caso de nela se encontrar uma tradição transmitida de geração em geração e que lhe sirva de testemunha essencial. Esta tradição agrega a memória de um povo ou de um grupo de povos que vivem em condições equivalentes ou, no mínimo, semelhantes, e pode manifestar-se de modos muito diversos, desde os simples costumes até especulações filosóficas muito complexas. Mas, na história da humanidade, sempre se privilegiou a escrita, por esta ser o meio mais seguro e mais fiel de conservar a memória do passado. Assim se explica que a Grécia seja o país de Hesíodo, Homero, Ésquilo, Heródoto e Platão, apesar de termos aprendido na escola que a escultura ocupa um lugar privilegiado na civilização que, segundo se diz repetidamente, constitui um milagre sem o qual nada teria sido possível.
Assim, no caso dos gregos, não se coloca a questão de a sua identidade cultural ser reconhecida, pois eles deixaram um número suficiente de obras escritas para que possam integrar-se entre os chamados Povos "civilizados". Mas o que dizer dos outros povos que, por uma qualquer razão, não conheceram a escrita ou nunca a utilizaram? Antigamente, devido à crença ria «mentalidade pré-lógica», tão cara à escola sociológica francesa do início do século XX, rejeitava-se uma cultura, que não tivesse escrita, por ser considerada incerta, incoerente e Primitiva. Esta ideologia, foi a concretização de um sistema construido sobre a universafidade de uma Razão única que justificava qualquer acto de colonização, cultural ou outra, e de missão, fossem quais fossem as intenções; ela privou a humanidade durante muito tempo de uma importante parte de si mesma, pois rejeitava, sem apelo nem agravo, tudo o que não pertencesse às normas em uso num sistema imutável e incontestável. Não interessa se se tratava de ignorância ou de desprezo pela diferença, pois a verdade é que já se ultrapassou essa fase, Já ninguém hoje duvida que Os construtores dos megãlitos, que viveram do V ao 11 milénio antes da nossa era, e de quem não se conhece nem o nome nem a língua, foram extraordinários artesãos de uma civilização brilhante que ocupou uma grande parte da Europa, tendo nela deixado marcas indeléveis.
Em termos de obras escritas, apesar disso, nada deles chegou até nós. Deles ficaram apenas monumentos, assim como misteriosos símbolos gravados na pedra, os quais, por terem um conteúdo mais mágico do que escrito, testemunham sem dúvida não apenas um sentido de arte apurado, mas também um pensamento muito organizado e quase científico. Acontece entretanto que o estudo destes símbolos e da arquitectura extraordinariamente complexa destes monumentos, a análise e a comparação dos diversos objectos arqueológicos contemporâneos, permitem que se reconstitua a partir de agora, mesmo que de forma incompleta e conjuntural, uma certa tradição característica da civilização dita megalifica.
No que respeita à tradição celta, está-se perante um caso muito semelhante. Nunca se pensou negar a existência dos celtas que, bem Pelo contrário, foram considerados os únicos predecessores dos romanos, selido-lhes atribuídos indiscriminadamente todos os vestígios que eram anteriores a estes últimos. Mas é sempre com um desprezo indisfarçado que se faz referência aos povos cujo único defeito parece ser o de não se terem deixado seduzir pelos encantos da escrita. Há uma realidade incontestável: os celtas não escreveram nada antes de serem cristianizados, ou seja, antes de monges eruditos e pacientes terem recolhido em manuscritos preciosos Os seus testemunhos orais que estavam em risco de desaparecer e que foram salvos do esquecimento. Deste modo, dispomos de testemunhos que, apesar de incompletos e deformados, nos transmitem os vestígios da alma dos povos celtas. Mas, na verdade, quem foram realmente os celtas?

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